Análise: Trump ajudou Bolsonaro?
Um fato a ser analisado com isenção, é se valeu a pena a tentativa de Trump “ajudar” Bolsonaro, gerando atrito com o Brasil. A resposta depende muito da posição política de cada um, em relação aos presidentes Lula e Trump. Porém, abstraído esse aspecto pessoal, o presidente americano no mínimo “excedeu-se”, ao tentar influir até nas decisões do judiciário brasileiro. De certa forma prejudicou Bolsonaro.
Para Bolsonaro e seus apoiadores, o apoio de Trump ofereceu um respaldo moral e ideológico. Reforçou uma posição de “anti-establishment”. Entretanto, para segmentos da população, a intervenção foi vista como uma interferência estrangeira inaceitável nos assuntos internos de uma nação soberana. Levou o judiciário brasileiro a prosseguir com os casos de forma rigorosa, evitando qualquer aparência de ceder à pressão externa.
Retaliação não aconteceu
Após a condenação de Bolsonaro, autoridades dos EUA prometeram retaliação. Mas nada aconteceu. Ao contrário, Trump começou uma relação com o adversário de Bolsonaro, Lula. Com visível demonstração de recuo, está declarando que “gosta do jeito de Lula”, vai dialogar e encontrar soluções. Não parece o Trump, que em julho enviou uma carta “furiosa” a Lula impondo tarifas ao Brasil e sanções aos ministros do Supremo Tribunal Federal para tentar influenciar no julgamento de Bolsonaro.
Avanços e recuos
Observadores são unanimes ao constatarem “avanços” e “recuos” nas ações de Trump, que tem um histórico de acusar aliados e, posteriormente, de buscar canais de diálogo com esses líderes específicos que contestou. Quando falou pela primeira vez na ONU, ele ameaçou “destruir totalmente” a Coreia do Norte. Logo depois, se tornou o primeiro presidente dos EUA em exercício a se encontrar com um líder norte-coreano (Kim Jong Un) e o primeiro a cruzar a zona desmilitarizada.
O governo Trump impôs elevadas tarifas sobre US$ 250 bilhões em produtos chineses. Logo depois, na Cúpula do G20 em Buenos Aires, assinou um amplo acordo de Paz com o presidente chinês Xi Jinping. A estratégia de ‘America First’ (América primeiro) de Trump e (o slogan) ‘o sonho chinês’ de Xi se baseiam na mesma ideia: que as duas superpotências têm total liberdade para agir, segundo seu próprio interesse.
Diante dos fatos é possível a conclusão de que a intervenção de Trump no caso de Bolsonaro, embora tenha sido um apoio simbólico, pouco contribuiu para o sucesso da sua defesa legal, podendo, em última análise, ter exacerbado seu isolamento político e sua queda na justiça.