Cambalache: quando a confusão moral vira sistema

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Há quase um século, um tango argentino descreveu com precisão desconfortável o mundo que hoje reconhecemos como familiar. Cambalache, escrita em 1934 por Enrique Santos Discépolo e eternizada na voz de Julio Sosa, não é apenas uma canção pessimista. É um diagnóstico moral.

A força de Cambalache está na denúncia de um mundo onde tudo se mistura: o honesto e o traidor, o sábio e o ignorante, o trabalhador e o explorador. Um mundo sem hierarquia de valores, sem reprovação, sem consequência. Um mundo em que o erro deixa de constranger e a virtude deixa de importar. Não por acaso, a canção atravessou décadas sem envelhecer.

No Brasil, Cambalache ganhou nova vida quando foi gravada por Caetano Veloso no chamado Disco Branco (1969). Não foi uma escolha estética neutra. Em plena ditadura militar, Caetano recuperou um tango ácido, escrito no contexto de outra crise histórica, para falar — ainda que indiretamente — de um país também mergulhado em confusão moral, autoritarismo e cinismo institucional. A canção voltou como espelho.

O Brasil contemporâneo continua cabendo nessa letra com precisão inquietante.

Aqui, escândalos se sucedem sem produzir consequência. Crimes confessados viram “excessos”. Irregularidades são rebatizadas como “narrativas”. A responsabilidade se dissolve em disputas políticas intermináveis. O passado explica tudo — e, ao explicar tudo, absolve tudo. A lama é antiga, logo parece tolerável.

A seguir, a letra de Cambalache, que ajuda a entender por que essa lógica segue operando:

Cambalache

Canção – Julio Sosa

Que o mundo foi e sempre será uma porcaria, eu já sei
Em quinhentos e dez, e em dois mil também
Que sempre houve ladrões, maquiavéis e enganados
Satisfeitos e amargurados, valores e duplicidades

Mas que o século vinte foi um desfile
De maldade insolente, disso já não há quem duvide
Vivemos todos revolvidos num merengue
E na mesma lama, todos, hmm, manuseados

Hoje resulta que é o mesmo ser honesto ou traidor
Ignorante, sábio ou ladrão, pretensioso ou estelionatário
Tudo é igual, nada é melhor
É o mesmo um burro que um grande professor!

Não há reprovados — que vai haver — nem hierarquia
Os imorais nos igualaram
Se um vive na impostura
E outro rouba por ambição
Tanto faz que seja padre, colchoneiro, rei de paus
Cara de pau ou clandestino

Que falta de respeito, que atropelo da razão
Qualquer um é um senhor, qualquer um é um ladrão
Misturado com Toscanini vão Scarface e Napoleão
Dom Bosco e “La Mignon”, Carnera e San Martín

Como numa vitrine desrespeitosa
Dos cambalaches, a vida se misturou
E ferida por um sabre sem rebites
Você vê a Bíblia chorar ao lado de um aquecedor

Século vinte, cambalache, problemático e febril
Quem não chora, não mama; e quem não rouba, é um otário
Vai em frente, vai sem medo
Que lá no forno a gente vai se encontrar

Não pense mais, sente-se de lado
A ninguém importa se você nasceu honrado
Pois é o mesmo aquele que trabalha
Noite e dia como um boi
Que aquele que vive das mulheres, que o que mata, que o que cura
Ou que vive fora da lei

O impacto de Cambalache não está em afirmar que “o mundo sempre foi assim”, mas em mostrar o que acontece quando aceitamos que seja. A canção denuncia o momento em que a confusão moral deixa de ser exceção e se transforma em sistema. Quando ninguém é reprovado, ninguém é responsável. Quando tudo parece igual, nada mais exige julgamento.

O Brasil vive hoje essa lógica. A captura do Estado é antiga, sem dúvida. Mas usá-la como explicação permanente é também usá-la como desculpa. Outros países, com histórias igualmente marcadas por autoritarismo, corrupção e desigualdade, escolheram romper ciclos. Pagaram custos políticos, fortaleceram instituições e criaram consequências reais. O Brasil preferiu normalizar o desvio.

Caetano Veloso entendeu isso cedo ao trazer Cambalache para o Brasil dos anos 1960. O problema é que, passadas décadas, seguimos ouvindo a canção não como alerta — mas como descrição confortável da realidade.

Talvez seja essa a pergunta que o tango nos devolve, quase cem anos depois:
quando tudo vira cambalache, o que ainda somos capazes de chamar de valor?

David Gertner, Ph.D. é professor aposentado e escritor. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre ética, instituições, silêncio e a condição humana. É autor de IA e Eu: a inesperada jornada de Liora e David, recém-lançado e disponível na Amazon.

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