Heróis, vilões e a invenção do inimigo

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Toda época gosta de se narrar como um duelo: de um lado, os heróis; do outro, os vilões. A narrativa é confortável. Organiza o medo, simplifica o mundo e distribui papéis claros em um cenário confuso. Em tempos de polarização, torna-se quase irresistível.

Mas a linha que separa heróis e vilões raramente está onde acreditamos.

Ela não é um traço fixo no chão da moral. É móvel, instável, redesenhada conforme o ponto de vista, o lugar de onde se fala e os interesses que se deseja preservar. O herói de um grupo costuma ser o vilão de outro. E ambos podem estar certos — ou errados — ao mesmo tempo.

Há figuras públicas que funcionam menos como líderes e mais como espelhos. Nelas, projetamos medos, desejos, frustrações e fantasmas coletivos. O problema começa quando deixamos de vê-las como espelhos e passamos a tratá-las como essências: quando o herói se torna imune à crítica e o vilão, indigno de escuta.

A história mostra como narrativas prontas envelhecem mal. Libertadores viram carcereiros; personagens rejeitados são reabilitados pelo tempo. O presente raramente acerta seus julgamentos definitivos.

Em sociedades polarizadas, o mundo deixa de ser um campo ético e vira um campo de batalha simbólico. A moral se reduz a pertencimento: quem está “do nosso lado” está certo; quem está do outro, errado antes mesmo de falar. Nesse ponto, a figura do vilão já não basta. Surge algo mais funcional: o inimigo.

Poucas coisas unem tanto quanto um inimigo comum. Ele oferece sentido em meio à incerteza, organiza o caos e transforma angústias difusas em ameaças nomeáveis. O inimigo não precisa ser real — precisa apenas ser convincente.

A polarização nasce desse mecanismo antigo. Quando a realidade se torna complexa demais, buscamos atalhos: nós e eles, bem e mal, certo e errado. A ambiguidade cansa. A complexidade exige esforço. O inimigo poupa trabalho.

Ao projetar o mal para fora, preservamos uma imagem interna de pureza. O grupo se sente justo não porque age melhor, mas porque escolheu o lado certo. A moral deixa de ser prática e vira identidade.

Talvez a pergunta decisiva do nosso tempo não seja quem são os heróis ou os vilões, mas por que precisamos tanto dessas figuras. O desejo por heróis absolutos costuma esconder o medo da responsabilidade. A obsessão por inimigos absolutos, o alívio de não encarar nossas próprias contradições.

Romper esse ciclo exige coragem emocional: a coragem de sustentar a ambiguidade sem pânico, de reconhecer que o outro pode estar errado sem ser monstruoso — e que nós podemos estar certos sem sermos virtuosos.

Talvez o gesto mais radical do nosso tempo não seja derrotar o inimigo, mas aprender a viver sem ele.

Enquanto precisarmos de inimigos para nos sentirmos inteiros, continuaremos fraturados.

David Gertner, Ph.D. — Nascido no Brasil, é professor aposentado e vive nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, é escritor e ensaísta, autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, no qual reflete sobre ética, tecnologia, identidade e a condição humana.

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