Toda geração acredita viver tempos excepcionais. Ainda assim, há momentos históricos em que essa sensação não é apenas retórica — é um sinal de transição real.
Ao observarmos o primeiro quarto do século XXI, a comparação com o século XX se impõe quase naturalmente. Não para prever o futuro com precisão, mas para tentar entender o tipo de século que estamos inaugurando.
O século XX, hoje sabemos, foi marcado por grandes rupturas concentradas. Duas guerras mundiais, regimes totalitários, genocídios, a ameaça nuclear e, ao mesmo tempo, avanços científicos e tecnológicos extraordinários. Foi um século de extremos, em que o progresso e a destruição caminharam lado a lado.
Curiosamente, o século XX só passou a fazer sentido depois. Em 1913, poucos imaginavam que o mundo europeu estava à beira de um colapso profundo. A sensação dominante era de estabilidade, crescimento e confiança no futuro. A história mostrou o quanto essa percepção era enganosa.
O início do século XXI também começou sob uma ilusão semelhante. Após o fim da Guerra Fria, acreditou-se que a democracia liberal, o mercado global e as instituições internacionais haviam consolidado uma ordem relativamente estável. Essa crença durou pouco.
Os atentados de 11 de setembro de 2001 foram o primeiro grande choque. Desde então, o mundo parece avançar não por grandes eventos isolados, mas por uma sequência contínua de crises: conflitos regionais prolongados, terrorismo, crises financeiras, pandemia, guerras que retornam à Europa, polarização política e uma sensação crescente de desordem global.
Diferentemente do século XX, que teve momentos claros de ruptura, o século XXI parece marcado por instabilidade permanente. Não há um centro organizador, nem uma narrativa dominante capaz de dar sentido ao conjunto dos acontecimentos.
Outro traço distintivo deste século é o papel da tecnologia. No século passado, ela foi instrumento de poder. Hoje, tornou-se o próprio poder. Dados, redes, algoritmos e inteligência artificial influenciam comportamentos, moldam opiniões, interferem na política e alteram nossa relação com o trabalho, a informação e até com a verdade.
Ao mesmo tempo, assistimos ao enfraquecimento das instituições que, por décadas, garantiram algum grau de previsibilidade: organismos multilaterais, acordos internacionais, normas compartilhadas. O mundo parece menos regido por regras e mais por interesses imediatos, força e narrativas concorrentes.
Talvez este seja o traço mais marcante do início do século XXI: a perda das certezas. A ideia de progresso linear se fragiliza. A democracia liberal deixa de ser consenso. A própria noção de verdade se fragmenta, dissolvida em bolhas ideológicas e disputas simbólicas.
Se o século XX foi lembrado como o século em que a humanidade aprendeu até onde podia ir em destruição, o século XXI pode ser lembrado como aquele em que a humanidade descobriu que possui poder suficiente para desorganizar — ou reinventar — a própria civilização.
A grande questão não é apenas geopolítica. É também ética, institucional e cultural. Teremos capacidade de criar regras, valores e formas de convivência compatíveis com a velocidade e a escala do poder que criamos?
Assim como no início do século passado, talvez só compreendamos plenamente este momento quando ele já tiver passado. Até lá, seguimos vivendo uma transição cujo desfecho ainda é incerto — mas cujos sinais já são impossíveis de ignorar.