Quais alternativas restam para a Humanidade?

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Este é um artigo longo. Concordando peço que compartilhem, pois a mídia se recusa publicá-lo devido a sua extensão.

Não é um artigo destinado a promoção de uma religião específica. Procuro, numa perspectiva sociológica, expor o papel central da crença em Deus na vida das sociedades.

Convido a iniciarmos com as reflexões, ainda atuais, de Dostoievsky: “se Deus não existe tudo é permitido”, e a de Nietzsche: “A morte de Deus”, ambos no sec. XIX. O pensador francês Voltaire, um século antes, já havia proclamando: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo”, referindo-se a um Poder Superior que, por atemorização ou convicção, possibilitasse uma ética capaz de organizar o viver coletivo.

Os três pensadores perceberam a necessidade da crença na Transcendência como fonte de regras morais, difusas no comportamento das pessoas, para que se pudesse, então, ter uma base sólida e comum, adotadas pelos cidadãos e cidadãs nas suas formas de organização e de funcionamento das sociedades.

Esta é, no meu entendimento, a única maneira de fazer surgir sociedades comprometidas, (a maioria dos seus membros), com a democracia, com o desenvolvimento humano, justo e pacífico, a partir de algumas poucas crenças, tais como: a sacralidade da vida, a dignidade inata das pessoas, o atendimento mínimo das necessidades básicas das populações, a destinação do Estado à promoção do Bem Comum, a Justiça como a garantia de cada um receber o que lhe é devido, a paz e o dever da solidariedade.

A crise mundial avoluma-se. Um clima de incertezas e de medo espalha-se pelo planeta. Muitas pessoas já começam a perceber e acreditar que a humanidade inteira corre o risco de extinção. As mudanças climáticas, principalmente o aquecimento da atmosfera, já se fazem sentir com intensidade crescente. O jornal O Globo de 20 de outubro de 2025, alerta com contundência: “Carlos Nobre, (renomado ambientalista), diz que a Terra pode ficar inabitável até 2100: temperatura que o corpo humano não resiste’. Providencias, de alcance global, precisam ser tomadas com urgência, (com a palavra a COP 30, agora reunida em Belém do Pará).

Perdeu-se a perspectiva da dignidade inata do ser humano, bem como a obrigação da promoção do Bem Comum pelos Estados. A causa maior deste caos progressivo está na ambição imoral, individualista, de homens e mulheres, a classe dominante, uma minoria que detém o poder político e econômico das nações.

O capitalismo e o comunismo, no sec. XX, foram as duas maiores e mais bem elaboradas propostas de organização sociopolítica, visando a promoção da Democracia e da Justiça Social nas sociedades, não existem mais em suas formatações originais. Nada de novo surgiu para substitui-las. A socialdemocracia e a democracia cristã foram esperanças passageiras, pois, criticadas pelas duas outras correntes políticas, líderes na época (sec. XX), não tiveram adesão popular expressiva nem competência de suas lideranças para sustentar e ampliar as promissoras novidades políticas.

Como pensar na recuperação social dos bilhões de pobres? São 3.7 bilhões, em estimativa recente da conhecida Ong inglesa OXFAM. A minoria dominante se satisfaz com a atual situação, preocupando-se mais com a sobrevivência e o aperfeiçoamento do sistema político e econômico que dominam, do que com a qualidade de vida da multidão de excluídos.

Estamos nos referindo a mulheres e homens, seres indivíduos distintos dos demais seres do Universo, dotados de uma interdisciplinar natureza racional, livre e social. É esta natural sociabilidade que nos conduz a ver no próximo um irmão, uma irmã e com eles conviver fraternalmente, cooperativamente e em paz. Pensar e proceder de forma diferente é acelerar as condições de não atendimento dos reclamos dos povos e a expansão do caos social, impeditivo da implementação de quaisquer providências para, pelo menos, diminuir o sofrimento dos excluídos das benesses do progresso.

Na recuperação majoritária da consciência do primado da ética nas relações familiares, sociais, políticas e econômicas, está o início do longo, árduo e difícil caminho a ser trilhado pela a humanidade, para a recuperação do seu destino de necessária convivência justa, livre e pacífica. Esta não é uma proposta ingênua, (observação vazia de conteúdo, apenas um desmerecimento intelectual, adequada ao não debate da questão que se coloca). Esta é uma proposta realista e desafiadora.

A crença em Deus não significa, como querem alguns, a satisfação da fragilidade emocional de cada pessoa. A construção das sociedades nos conduziu a conclusão lógica e evidente de que a crença em Deus, fonte da ética, se tornou variável decisiva para superarmos o mal que permeia, de forma crescente, o mundo contemporâneo. Para que possamos começar a pensar em algo necessário, que una os povos em torno de um ideal, a proposta de um Deus criador é, como já foi no passado, a melhor alternativa a ser oferecida.

As decisões dos poderes político e econômico estão nas mãos da classe dominante. Técnicas de marketing, de psicologia social, da inteligência artificial associada às informações de enormes bancos de dados interligados, são usadas, cada vez mais, para liquidar com a liberdade e a intimidade das pessoas, influenciando fortemente os povos a se submeterem à dominação nas suas formas de pensar, de consumir e de expressar suas preferências políticas.

A forma mais sofisticada de dominação é a educação de qualidade, afastada do ensino da ética, atendendo principalmente a classe dominante. Formados com competência exercem, naturalmente, os poderes socio/políticos/econômicos que exigem, cada vez mais, mentes qualificadas para dirigir os destinos das sociedades.

Substituiu-se a solidariedade pela competição e os mais bem formados intelectualmente assumem as posições de mando, perpetuando a exclusão dos marginalizados da possibilidade de participar da construção de uma nova sociedade, mais justa e democrática.

No sec. XXI a miséria, a fome, o não atendimento das necessidades básicas de bilhões de pessoas e a gravíssima crise climática, são inaceitáveis. A todos deve ser garantido sistemas educacionais de qualidade, a única maneira de assegurar a igualdade de oportunidades. Entretanto, também outras necessidades básicas devem ser garantidas pelos Estados, ao menos visando a um mínimo de decente atendimento: emprego, alimentação, saúde, moradia, vestuário, transporte, saneamento e segurança.

A densidade ética nas sociedades é requisito fundamental para que normas e regras de conduta funcionem. É impossível pensar em Leis que regulem todas as atividades humanas. Intelectuais, cientistas, políticos, fogem desta discussão como se a crença em Deus seja uma atitude ultrapassada e descartável. Muitos consideram que a aceitação da Transcendência, como uma variável a ser considerada nos governos das sociedades, seja um demérito das qualificações acadêmicas daqueles que deles participam. Parecem afirmar: “Deus é uma hipótese dispensável, limitativa da liberdade de pensar e sem sentido nas discussões sócio, políticas e econômicas, nos dias atuais”.

O Estado deve ser leigo, uma conquista da Humanidade. No entanto, seus servidores são pessoas que podem abraçar uma determinada fé e não devem recear represálias por acreditarem na Transcendência, crença esta que certamente condicionará suas decisões pessoais, aquelas que envolvam aspectos morais.

É evidente que o pensamento ético, na história do Ocidente, decorreu de pregações religiosas alicerçadas na tradição do pensamento judaico/cristão, principalmente o das Igrejas Cristãs históricas, (hoje muito retraídas), e não da elaboração intelectual independente, em espaços públicos.

A Civilização Ocidental ainda é o paradigma de como organizar a vida coletiva, apesar da rápida ascensão das Civilizações Orientais, que estão começando a liderar o processo histórico, absorvendo muito as inspirações basilares das instituições, ciência e cultura Ocidentais. O extraordinário progresso das tecnologias, mormente da informática, aproximou os países de forma irreversível, sinal de que se deve começar a pensar, num futuro não muito distante, a construção de um único país – O Planeta Terra.

As novas gerações não conhecem e não levam em consideração a crença em Deus, como fator indutor do pensamento e do comportamento humano. Palavras como compaixão, solidariedade, convívio pacífico e respeito ao próximo, são desconhecidas nos relacionamentos políticos, econômicos e sociais. A crença no Transcendente dilui-se no deboche e na certeza de que referências aos ensinamentos religiosos estão superados e são academicamente risíveis e limitativos da liberdade.

Sem tais requisitos morais prévios, quaisquer planos de urgente recuperação do meio ambiente, da eliminação da miséria, do atendimento das necessidades básicas das pessoas, não serão exitosos.

Eurico de Andrade Neves Borba, escritor, 85, aposentado, ex professor da PUC RIO,

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